Quinta-feira, Abril 06, 2006

Sugestões, sim. Imposições, não!

Estive grande parte da noite a remoer certa (quase) imposição que me fizeram. E como não sou de aceitar, de muito bom grado, aquilo que me é imposto fazer contra minha vontade, pior ainda quando sei que tal passa por uma refinada sacanagem, fico a cismar na dita o que me provoca trambolhões nervosos no estómago e apertos aqui do lado esquerdo do peito, que a "mecânica" desta velha máquina de 56 anos já não é o que era.

Bem... mas para remediar o mal, foi-me dado por telemóvel certa sugestão para "melhorar" a fisionomia - se assim se pode chamar - deste blogue designado "Eco-Graphias", sem necessidade de recorrer às maquilhagens apaneleiradas de José Castelo Branco. E a sugestão aceito. E o referido palpite aconselhava a que fosse colocando, aleatoriamente, "peregrinações" (permitam-me o termo) que tenho feito pelos vários locais deste meu país tão esquecido. Isto é: fugir a um itinerário "certinho" como se pretendesse levar comigo o caminheiro, pela mão - direi - para que se não perdesse nesta viagem. Isto tudo depois de ter explicado a razão do nome.

"Ora, se a intenção é essa," - dizia-me ele - "fazer perder o peregrino pelos quatro cantos desta casa chamada Portugal, então porque não lhe apontas caminhos diferentes, para quebrar a monotonia da narração? Leva-o umas vezes para as Beiras e outras para o Litoral; perde-o, umas vezes nas montanhas do Norte e outras vezes leva-o a dar um mergulho nas praias do Sul. Vai com ele até à Costa Vicentina e embranha-o depois nas matas do Gerês".

É exactamente isso que vou fazer. Prometo tentar fazer. E porque essa sugestão veio dum alentejano, por aqui começo em sua homenagem.

Quarta-feira, Abril 05, 2006

Em dia de solstício da primavera


Por aqui posso andar à vontade e sossegado… pelo menos por ora que as vinhas ainda não dão trabalho. Apenas me chateia não ter à mão outro meio de matar o tempo diferente das leituras dos livros que trouxe ou da máquina fotográfica. A intenet, por exemplo, para colocar no “éter”, no momento, aquilo que escrevo ou capturo com a minha objectiva..
Acordo de manhã, bem cedo, com o chilreio dos pardais nos beirais do telhado da Cacilda, que ainda o sol, preguiçoso, se deita para lá de terras de Espanha. Mas não tarda, aí estará ele a espreguiçar os braços e a brindar-nos com o sorrir dos seus raios depois de se destapar dos lençóis protectores do Montemeão que se cobre, nesta época de primavera, do multicolor florido das giestas, rosmaninhos e estevas..
Sabe-me bem este preguiçar!
É diferente e mais saboroso que o da cidade grande, infestada sempre de ruídos ensurdecedores e de descomunais descargas de dióxido de carbono.
Se não me apetece levantar com o cantar do galo pedrês que me grita as horas lá do fundo do quintal – e tantas vezes isso acontece –, viro-me para o outro lado da cama e deixo-me cair naquela sonolência pachorrenta, mesmo peganhosa, que nem a ânsia de devorar o livro que comecei há pouco a ler e descansa na tosca mesinha de cabeceira, me devolve à vida..
Mas hoje não! Hoje, 21 de Março. Dia primaveril. Dia do solstício da primavera.
Levantei-me cedo – não tão cedo quanto desejava que o acto realizava-se entre as sete e meia e as oito da manhã – e dispus-me a deitar as botas ao caminho que ainda tinha pela frente mais de quatro léguas de estrada, sinuosas, não contando com as inúmeras curvas de Montargão. Não importava assistir ao evento, até porque nem sou pessoa de crer nestas crendices quanto mais assistir a cerimónias pagãs, ou religiosas que fossem. Interessava-me apenas, mais uma vez, fotografar a pedra que “descobri” há alguns anos e da qual até guardo, com alguma mágoa, amarga recordação.
Na comunhão de um silêncio comprometedor, ali estava eu ao fim da manhã – mais virado para o pino do meio-dia – a fotografar a dita, que o espreitar do sol, em solstício, pela concavidade em arco do penedo, há muito tinha sido. Um modelo gigante que ali, em terras de Tambores, se acomodou estático, mas imponente, na paz e quietude de Chãs de Foz Côa, sem se incomodar com a presença de Deus ou a descrença dos Homens. Mesmo, não ligando à lenda que provavelmente lhe deu o nome de baptismo de “Cabeleira de Nossa Senhora”.

Trepar ao Miradouro...

Deitei-me ao caminho, de regresso a casa, não sem antes trepar, quase a galope, no todo o terreno, ao Miradouro de S. Gabriel, e dali deleitar os olhos na grandeza dos quatro cantos de um universo majestoso que se estende aos pés da pequenez do Homem.

Nas lonjuras do nascente, para lá do Douro Internacional onde a beleza exuberante das suas arribas ainda abriga espécies de aves raras que adornam os céus nos seus voos planares e de silêncio, Espanha, que em breve se acolheria nos braços ternos da noite. Ao fundo, Almendra no seu casario branco que em preguiça se estende entre amendoais em flor.

E aos pés de S. Gabriel, quase de joelhos e em permanente oração, Castelo Melhor sempre guardado pelo velho castelo do século XIII, em cujo interior da muralha xistosa, qual polígono irregular, alberga ainda uma cisterna e vestígios de vários edifícios. Desce, numa inclinação suave ornada de olivais, a estreita estrada poeirenta que, nos quase seus 6 quilómetros de distância, nos desafia a ir ver o mais importante núcleo das gravuras rupestres do Côa - o "Núcleo de Penascosa".

E, de um azulado baço devido aos mais de 6 quilómetros que me separavam da mesma, a Quinta da Erva-Moira, que se estende airosa e fértil nos seus vinhedos subindo em bardos a perder de vista as quebradas suaves entre a margem esquerda do rio Côa e a direita da Ribeira dos Piscos. Tombava o sol para lá dela deixando reflexos doirados de um fim de dia que prometia à noite, que se avizinhava rápida, forte temporal, quando me decidi a partir, enfim…

Terça-feira, Abril 04, 2006

Igreja-Fortaleza

Com um bonito céu a compor-se para a fotografia dita “dramática”, muito embora ameaçando chuva da grossa convidando ao resguardo da máquina sob o blusão impermeável, dei por mim a descer a rua, para além da “jóia” dos viscondes do banho, que vai desaguar no fundo da povoação onde se ergue, imponente, a Igreja Matriz, cuja área envolvente muito provavelmente se terá constituído ali, no I milénio a.C. como núcleo fortificado.
É uma Igreja-Fortaleza, de aspecto robusto e de feição militar medieval.

Pode ler-se, sobre a Igreja Matriz de Almendra, a seguinte descrição, exposta no exterior da mesma.
De estrutura românica, apresenta uma torre sineira.
O portal é ladeado por dois contrafortes. Na parede posterior do corpo da igreja, existe uma outra torre com contrafortes adossados aos cantos.
O portal axial denota influências renascentistas.
A entrada, em arquivoltas, é ladeada por três pilastras sobrepostas, encimadas por pináculos. Em cima do portal, no interior do frontão, podemos ler a inscrição “1565”.
No interior a igreja está dividida em três arcos. A capela-mor detém um tecto com uma abóbada de combado. O altar-mor, “rocaille”, possui um bonito trabalho de talha

Segunda-feira, Abril 03, 2006

Um pedaço de céu... na terra!

"(...) As janelas são já“rocaille” com bonitas vieiras invertidas. Apresenta fenestrações em arco abatido, com molduras decoradas. Os cunhais ostentam capitéis compósitos."
E chega desta jóia de Almendra. Não sou da terra, mas aconselho a sua visita.

Solar dos Viscondes do Banho

Como o prometido é devido... aqui vai sem qualquer patrocínio seja de quem for.
Apenas me move a vontade de descobrir coisas de valor a que já se não dá quase valor.


SOLAR DO VISCONDE DO BANHO ou CASA DE ALMENDRA
Situado na Rua do Paço, em Almendra, é um “Edifício de dois pisos onde o elemento marcante se situa na fachada, constando de uma varanda com balaústres e janela ornamentada com motivos barrocos.
A encimá-la, um brasão enquadrado por frontão curvilíneo pedra de armas setecentista nunca acabada!
As janelas são já “rocaille” com bonitas vieiras invertidas.
Apresenta fenestrações em arco abatido, com molduras decoradas.
Os cunhais ostentam capitéis compósitos
”.
Algumas notas biográficas dos 5 viscondes, titulares deste solar:

Título criado por D. Maria II, rainha de Portugal, por decreto de 21-07-1835 a favor de Alexandre Tomás de Morais Sarmento, 1º visconde do Banho, nascido em 1786 e falecido em 1840.
Filho de Tomás Inácio de Morais Sarmento e de mãe natural, casou em 1816 com Maria dos Prazeres Girão de Sousa, tendo deste casamento um filho de nome Tomás Inácio Girão de Sousa e Melo, 2º visconde do Banho, nascido a 1819 e falecido a 1890.

Deste casamento nasceram mais quatro filhas, umas das quais, Margarida dos Prazeres Girão de Morais Sarmento, nascida a 1826, viria a casar com António José Gomes de Aguiar dando à luz o 3º visconde do Banho, Júlio Girão Faria de Morais Sarmento, nascido a 1857 e falecido a 1928. Formado em direito, foi deputado, ministro da justiça e da instrução pública e governador civil de Coimbra. Fez parte da Junta Governativa da «Monarquia do Norte» em 1919. Preso como fim da revolta, foi amnistiado em 1921. Continuando a defender a causa monárquica, integrou o seu conselho político.

É 4º visconde do Banho, José Júlio de Castilho de Morais Sarmento, nascido a 1900 e falecido a 1959, fruto do casamento do 3º visconde do Banho com Ana Augusta de Castilho falcão de Mendonça.

Casa o 4º visconde do Banho com Maria do Céu Frias e Gouveia Leitão nascendo desta união Ana Maria de Frias e Gouveia de Morais Sarmento, 5ª viscondessa do Banho 2ª viscondessa de Almendra.

Casa a 5ª viscondessa do Banho 2ª viscondessa de Almendra com Júlio Rocha da Costa Moniz, nascendo desta união dois filhos e uma filha Ana Maria de Morais Sarmento Moniz que virá a casar com Manuel Mouzinho de Albuquerque de Mascarenhas Gaivão, 6º conde de Alvelos.

Fontes: Genea Portugal e Diário de João Chagas – Volume 4º

Domingo, Abril 02, 2006

Jóias perdidas



Há dias - num daqueles dias em que uma ânsia inexplicável e incontida incomoda no peito - deu-me para me fazer à estrada negra de asfalto - que hoje já não se mastiga poeira nesta civilização emproada, de peito inchado de condecorações e de colarinhos brancos sob os quais se esconde tantas vezes o crime - e fui-me à cata de jóias raras, perdidas entre ruínas ali p´ros lados donde o sol nasce primeiro depois de passar o rio Côa, cujas margens íngremes, de entranhas negras, esventrada, que uma barragem que não se fez, deixou, assustariam agora até os homens de antanho que por lá deixaram marcas da sua passagem.
E achei coisas mil, entre as quais um velho solar assim designado "Solar dos Viscondes do Banho", que os actuais preferem se chame "Casa de Almendra".
Prometo falar-vos dele e mostrar-vos beleza. Agora fica uma fotografia da pedra de armas setecentista nunca acabada.

Meio perdido...

Andava aqui eu, manhã de domingo primaveril, bem cedinho, muito antes do sol dar à luz o novo dia, espiolhando os quatro cantos da NET com o meu portátil sentado nos joelhos à procura de matar o tédio que a presença de Morfeu se não fez sentir esta noite - coisas de que a idade padece -, quando dei de caras com um Blog de uma pessoa que eu conheci no tempo em que os "Amigos" ainda eram "Amigos", ou pelo menos eu julgava tal...
E disse de mim para mim... "ora aqui está maneira de eu me perder (ou encontrar) neste tempo de reforma e matar o tempo de outro modo diferente daquele em que calcorreio caminhos sinuosos - como os caminhos da vida - batendo chapas por tudo quanto brilha à frente da minha objectiva fotográfica; ou seja, ficar mais tempo sentado, aqui em casa, gastando o cóccix a coçá-lo no sofá da sala e colocar estas coisas, da escrita, em dia, que se aproxima o advento da velhice e é preciso deixá-las bem alinhadinhas, à minha maneira, pois pode ser que um dia uma filha ou, quiçá, um neto, se lembre de os publicar já que as editoras, de agora, apenas ligam aos "famosos" que com valor alcançaram a fama que possuem, ou a "qualquer Zé da boina" que dita meia dúzia de parolices sem o sabor delicioso que os pastéis de nata têm, num programa meio idiota que a nossa rasca televisão possui, para uma dúzia de basbacos que logo se apressa a comprar tal livro mal escrito e enfermo de sentido.
Bom... e vai de reflectir que forma daria ao dito nascimento deste blogue (não se admirem de escrever "blogue" com "e" - pois ainda sou do tempo em que português era português e não portuganhês.
E já a manhã ia alta, com o sol quase no pino do meio dia, quando me decidi a sentar de novo o portátil nestas pernas onde os joelhos já começam a anquilosar, para dar forma à ideia deste ser.
E aqui vai, com este intróito, a promessa de que tentarei tê-lo sempre actualizado, desde que esteja sempre próximo de uma fonte de luz e vida, que o mesmo é dizer, desde que esteja em sítio onde tenha acesso a esta coisa que o(s) Bill(s) Gates(s) inventou(aram) - a internet.